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Dra. Fernanda Teresa de Lima
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Dra. Fernanda Teresa de Lima
Dra. Fernanda Teresa de Lima São Paulo • SP • CRM-SP 86474 | RQE 27745
Como Funciona a Herança Genética: o Que Passamos para os Filhos
Pacientes Genética Clínica

Como Funciona a Herança Genética: o Que Passamos para os Filhos

Escrito e revisado por: Dra. Fernanda Teresa de Lima CRM-SP 86474

Atendimento: São Paulo

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Conteúdo informativo com revisão médica. Não substitui avaliação individualizada, consulta presencial ou aconselhamento genético.

Todos nós já notamos como características físicas — o formato do nariz, a cor dos olhos, o timbre da voz passam de pai para filho e parecem "saltar" de geração em geração. Mas a herança genética vai muito além das características visíveis: ela também influencia a predisposição a certas doenças, o funcionamento do metabolismo e aspectos do desenvolvimento. Entender como esse processo funciona é o primeiro passo para compreender por que algumas condições de saúde aparecem em famílias e o que isso significa para os filhos.

O ponto de partida: cromossomos e genes

Cada célula do corpo humano carrega 46 cromossomos, organizados em 23 pares. Em cada par, um cromossomo veio da mãe e o outro veio do pai. Os cromossomos são compostos por fitas de informação genética chamadas DNA, e cada cromossomo contém seções de DNA denominadas genes. Os genes carregam a informação necessária para que o corpo produza determinadas proteínas.

Cada gene existe em duas cópias — uma herdada de cada progenitor. Essas versões de um mesmo gene podem ser idênticas ou ligeiramente diferentes entre si, e são chamadas de alelos. É a combinação específica dos alelos de cada pessoa que define suas características e sua predisposição a determinadas condições.

Como os genes são transmitidos: o papel da meiose

Quando um ser humano se reproduz, não transmite todos os seus 46 cromossomos de uma vez. Se assim fosse, os filhos teriam 92 cromossomos — e os netos, 184, e assim por diante. A natureza resolveu esse problema com um processo elegante chamado meiose.

A meiose é uma forma especial de divisão celular que ocorre nas células reprodutivas. Seu resultado é a criação de células filhas — os espermatozoides e os óvulos — através de uma divisão reducional que resulta em apenas metade do complemento cromossômico, de forma que, ao se unir com outra célula sexual na fertilização, seja restaurado o complemento diplóide completo.

Em outras palavras: cada espermatozoide e cada óvulo carrega apenas 23 cromossomos. Quando ocorre a fertilização, os 23 do pai somam-se aos 23 da mãe — e o bebê começa com 46 cromossomos, metade de cada progenitor.

A diversidade genômica e a variação genética são produzidas por meio da meiose, graças à recombinação cromossômica e à distribuição independente dos cromossomos. Isso explica por que irmãos com os mesmos pais podem ser tão diferentes entre si: a combinação específica de cromossomos que cada filho herda é, em grande parte, aleatória — com aproximadamente 8 milhões de combinações possíveis só considerando a distribuição dos cromossomos.

O 23º par: os cromossomos sexuais

Vinte e dois dos 23 pares de cromossomos são chamados de autossomos e são iguais em homens e mulheres. O 23º par é diferente: é o par dos cromossomos sexuais.

Na espécie humana, os indivíduos do sexo feminino carregam dois cromossomos X (XX), enquanto os indivíduos do sexo masculino carregam um cromossomo X e um Y (XY). Portanto, as mulheres carregam duas cópias de cada gene ligado ao X, mas os homens carregam apenas uma cópia de cada gene ligado ao X. NCBI

O sexo do bebê é definido pelo espermatozoide: metade dos espermatozoides carrega o cromossomo X e a outra metade carrega o Y. Todos os óvulos carregam o cromossomo X. Se o espermatozoide que fertiliza o óvulo tiver X, o bebê será XX (menina); se tiver Y, será XY (menino). A mãe, portanto, não tem influência sobre o sexo do filho — essa determinação vem exclusivamente do pai.

Os padrões de herança: como as doenças genéticas se transmitem

Nem todas as condições genéticas se transmitem da mesma forma. Existem cinco modos básicos de herança para doenças de gene único: autossômico dominante, autossômico recessivo, dominante ligado ao X, recessivo ligado ao X e mitocondrial.

Herança autossômica dominante

Neste padrão, basta uma cópia alterada do gene — herdada de apenas um dos pais — para que a condição se manifeste. Se um organismo herda pelo menos uma variante dominante, exibirá o efeito, ou fenótipo, do alelo dominante.

Na prática, isso significa que uma pessoa afetada tem 50% de chance de transmitir a condição a cada filho. Exemplos incluem a síndrome de Marfan, a acondroplasia e a doença de Huntington.

Herança autossômica recessiva

Aqui, são necessárias duas cópias alteradas — uma de cada pai — para que a doença se manifeste. Quem tem apenas uma cópia alterada é chamado de portador: não apresenta a doença, mas pode transmitir essa cópia aos filhos.

Se ambos os parceiros são portadores heterozigóticos da mesma doença autossômica recessiva, o risco de transmissão aos filhos é o seguinte: 25% dos filhos serão afetados; 50% serão portadores saudáveis, assim como os pais; e 25% serão homozigotos para o alelo normal.

Doenças como fibrose cística, anemia falciforme e fenilcetonúria seguem esse padrão.

Herança ligada ao X

Algumas condições são causadas por genes localizados no cromossomo X. Como os meninos têm apenas um cromossomo X (herdado da mãe), qualquer alteração nesse cromossomo se manifesta neles — já que não existe uma segunda cópia funcional para compensar. As meninas, com dois cromossomos X, frequentemente são portadoras sem desenvolver a doença.

Uma característica marcante da herança ligada ao X é que os pais não podem transmitir características ligadas ao X para seus filhos; os pais transmitem apenas o cromossomo X para as filhas e o cromossomo Y para os filhos. Em contraste, as mães transmitem genes ligados ao X tanto para filhos quanto para filhas.

Exemplos clássicos incluem a hemofilia e o daltonismo.

Herança mitocondrial

Existe ainda um quinto padrão, menos conhecido: a herança mitocondrial. As mitocôndrias — as "usinas de energia" das células — têm seu próprio DNA, distinto do DNA dos cromossomos. Como as mitocôndrias vêm apenas do óvulo feminino, a maioria das doenças relacionadas ao DNA mitocondrial é transmitida pela mãe. Isso significa que uma mãe afetada pode transmitir a condição a todos os filhos, mas um pai afetado não a transmite a nenhum.

E quando a herança não é tão simples?

Muitas condições comuns — como hipertensão, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer e doenças do coração — não seguem um único padrão de herança. Muitas condições de saúde são causadas pelos efeitos combinados de múltiplos genes, ou por interações entre genes e o ambiente. Essas doenças geralmente não seguem os padrões de herança simples.

Nesses casos, os genes aumentam ou diminuem o risco, mas não determinam sozinhos o destino de uma pessoa. O estilo de vida, a alimentação, as exposições ambientais e outros fatores também desempenham papéis importantes. Por isso, mesmo tendo histórico familiar de uma dessas condições, não significa que a doença seja inevitável — e não tê-la na família também não é garantia de proteção.

Herança não é destino

Talvez o ponto mais importante de toda essa discussão seja este: conhecer os padrões de herança genética não serve para prever o futuro com certeza, mas para entender riscos e agir com mais informação. Compreender por que alguns alelos são prejudiciais no estado heterozigótico — representando herança dominante — e outros somente com a presença bialélica de variantes patogênicas — representando herança recessiva — é particularmente importante para otimizar o diagnóstico e o aconselhamento genético.

Saber que existe uma predisposição familiar permite acompanhamento mais próximo, exames preventivos no momento certo e decisões mais conscientes — sobre saúde, sobre planejamento familiar e sobre o cuidado com as próximas gerações.

Referências

  1. Zschocke J, Byers PH, Wilkie AOM. Mendelian inheritance revisited: dominance and recessiveness in medical genetics. Nat Rev Genet. 2023;24(7):442–463. PMID: 36806206.
  2. Lewis RG & Simpson B. Genetics, Autosomal Dominant. StatPearls. NCBI Bookshelf. PMID: 32491444.
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  4. Gottlieb SF, Gulani A, Tegay DH. Genetics, Meiosis. In: StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK482462/
  5. Genetic Alliance; NY-Mid-Atlantic Consortium for Genetic and Newborn Screening Services. Classic Mendelian Genetics. In:. ______.Understanding Genetics: A New York, Mid-Atlantic Guide for Patients and Health Professionals. Washington: Genetic Alliance, 2009. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK115561/

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