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Dra. Fernanda Teresa de Lima
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Dra. Fernanda Teresa de Lima São Paulo • SP • CRM-SP 86474 | RQE 27745
Aconselhamento Genético Pré e Pós-Teste Molecular: o que acontece antes e depois do exame de DNA?
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Aconselhamento Genético Pré e Pós-Teste Molecular: o que acontece antes e depois do exame de DNA?

Escrito e revisado por: Dra. Fernanda Teresa de Lima CRM-SP 86474

Atendimento: São Paulo

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Conteúdo informativo com revisão médica. Não substitui avaliação individualizada, consulta presencial ou aconselhamento genético.

Quando um médico solicita um teste genético molecular — aquele exame que analisa diretamente o DNA em busca de alterações em genes — muita gente imagina que o processo se resume a colher sangue, esperar o resultado e receber um papel com respostas.

Na prática, o que acontece é bem mais rico e cuidadoso do que isso. Antes e depois de qualquer teste genético relevante, existe um momento essencial chamado aconselhamento genético — uma conversa estruturada que prepara a pessoa para o exame e a ajuda a compreender e usar o resultado da melhor forma possível.

Esse processo se divide em dois momentos: o aconselhamento pré-teste, que acontece antes do exame ser realizado, e o aconselhamento pós-teste, que ocorre após o resultado chegar. Cada um tem objetivos distintos e igualmente importantes.

Parte 1 — O Aconselhamento Pré-Teste: antes de abrir a caixa

Imagine que você está prestes a abrir uma caixa que pode conter informações transformadoras sobre sua saúde e a da sua família. O aconselhamento pré-teste é o momento em que o especialista senta com você, explica o que pode estar dentro dessa caixa, o que pode ou não ser encontrado, e pergunta se você está preparado para receber o que vier.

O aconselhamento pré-teste inclui fornecer informações sobre a condição que está sendo investigada, as limitações e riscos do teste, os possíveis resultados e seu significado para o manejo clínico, e as potenciais implicações para os familiares.

Na prática, o aconselhamento pré-teste aborda os seguintes pontos:

Por que esse teste foi indicado?

O primeiro passo é garantir que a pessoa entenda o motivo pelo qual o teste foi solicitado. Às vezes, isso ocorre porque alguém da família já tem uma mutação identificada. Outras vezes, é porque a história clínica — como vários casos de câncer na família ou uma criança com atraso no desenvolvimento — levanta suspeita de uma condição hereditária.

O que o teste pode encontrar?

O especialista explica os tipos de resultado que podem aparecer. Em um teste genético molecular, os resultados geralmente se encaixam em algumas categorias:

  • Resultado positivo (mutação identificada): foi encontrada uma alteração genética que explica ou aumenta o risco da condição investigada.
  • Resultado negativo (sem alteração identificada): nenhuma mutação foi detectada — mas isso não garante ausência de risco, pois o teste tem limitações.
  • Variante de significado incerto (VUS): foi encontrada uma alteração no DNA cujo impacto ainda não é completamente compreendido pela ciência.

Esse último resultado merece atenção especial, pois é um resultado cada vez mais comum com o avanço dos testes genéticos modernos. Com o advento do sequenciamento de nova geração e dos painéis multigênicos, os testes genéticos tornaram-se crescentemente complexos, e os resultados classificados como variantes de significado incerto (VUS) apresentam desafios interpretativos — sua má interpretação pode resultar em danos clínicos, sofrimento emocional para pacientes e familiares, e potencial responsabilidade dos profissionais de saúde.

Por isso, o aconselhamento pré-teste deve incluir uma discussão sobre a possibilidade de encontrar variantes de significado incerto, o que isso significaria para o cuidado do paciente e seus potenciais impactos psicossociais. 

O que o teste não pode responder?

Um ponto fundamental do aconselhamento pré-teste é ser claro sobre as limitações do exame. Alguns testes genéticos não são capazes de prever com absoluta certeza se uma doença vai ou não se desenvolver. Alguns genes aumentam o risco, mas não determinam um destino. Entender isso antes de realizar o exame evita expectativas equivocadas e ajuda a pessoa a processar o resultado de forma mais realista.

Implicações para a família

O resultado de um teste genético raramente afeta apenas quem fez o exame. O aconselhamento pré-teste inclui a discussão sobre as potenciais implicações do resultado para os familiares. Isso significa conversar sobre quem pode ser orientado a também realizar o teste, como comunicar essa informação à família e o que isso pode significar para as próximas gerações.

A decisão de fazer o teste é sua

Um princípio central do aconselhamento genético é o respeito à autonomia. O especialista apresenta informações e esclarece dúvidas, mas a decisão de realizar ou não o teste cabe exclusivamente ao paciente. Não existe resposta certa ou errada — existe a escolha que faz mais sentido para cada pessoa, considerando seus valores, sua situação de saúde e o que ela deseja saber sobre si mesma.

Parte 2 — O Aconselhamento Pós-Teste: depois que o resultado chega

Receber o resultado de um teste genético pode ser um momento carregado de emoções — alívio, ansiedade, confusão, tristeza ou até indiferença. O aconselhamento pós-teste existe para garantir que esse resultado seja compreendido corretamente e que a pessoa saiba o que fazer com essa informação.

O aconselhamento pós-teste inclui a divulgação do resultado, a discussão de sua interpretação no contexto da história pessoal e familiar do indivíduo, e a revisão das implicações para o manejo clínico. 

Quando o resultado é positivo

O recebimento de um resultado positivo — ou seja, quando uma mutação significativa é identificada — é um momento muito difícil.

Alguns resultados identificam que a pessoa tem uma doença genética, muitas vezes grave e sem tratamento.

Outras vezes, os resultados identificam que a pessoa irá desenvolver no futuro uma doença genética.

Existem ainda resultados que indicam riscos e probabiliades, mas não determinam se a pessoa irá ou não desenvolver determinadas doenças. É uma informação que abre portas para ações concretas de prevenção e acompanhamento.

Ao receber o resultado de um teste genético molecular, o aconselhamento pós-teste:

  • Explica o que a mutação encontrada significa para a saúde da pessoa
  • Discute as opções de acompanhamento, rastreamento e prevenção disponíveis
  • Orienta sobre o risco para os familiares e quem deveria ser testado
  • Oferece suporte emocional e, quando necessário, encaminhar para apoio psicológico

Quando o resultado é negativo

Um resultado negativo traz, na maior parte dos casos, tranquilidade — especialmente quando havia uma mutação familiar conhecida que não foi herdada. Mas o aconselhamento pós-teste ainda é importante para esclarecer que um resultado negativo não significa risco zero, já que os testes têm limitações técnicas e muitas vezes, não investigam todos os genes as condições investigadas.

Quando o resultado é uma VUS — a zona de incerteza

Este é frequentemente o resultado mais difícil de explicar e de receber. Uma variante de significado incerto significa que o laboratório encontrou uma alteração no DNA que ainda não se sabe ao certo se causa doença ou não.

Cerca de 80% a 90% das VUS são eventualmente reclassificadas como benignas ou provavelmente benignas, e 10% a 15% como patogênicas ou provavelmente patogênicas.

Por isso, quando uma VUS é identificada, o aconselhamento pós-teste deve incluir educação adicional e uma discussão sobre as implicações da variante e as recomendações de manejo clínico com base nos resultados.

É fundamental que o paciente entenda que uma VUS não deve ser usada para tomar decisões clínicas drásticas, como realizar cirurgias preventivas.

Pacientes que receberam aconselhamento genético após o resultado relataram menos confusão, menos frustração e maior confiança na compreensão dos seus resultados do que aqueles que não foram encaminhados ao aconselhamento. 

O acompanhamento não termina com o resultado

Uma VUS pode ser reclassificada com o tempo, à medida que a ciência avança e mais dados se acumulam sobre aquela alteração genética específica. Por isso, o aconselhamento pós-teste também orienta o paciente a manter contato regular com o serviço de genética, atualizar informações sobre sua história de saúde e verificar periodicamente se houve reclassificação da variante.

Por que esse processo todo é tão importante?

A resposta é simples: porque um teste genético sem aconselhamento adequado pode fazer mais mal do que bem.

Consultas tradicionais e aprofundadas de aconselhamento genético são reservadas para situações de maior complexidade e incerteza, onde informações detalhadas, educação e suporte psicológico são mais necessários. Em outras palavras, o nível de aprofundamento do aconselhamento é adaptado à complexidade de cada situação — mas ele nunca é dispensável por completo.

Sem orientação adequada antes do teste, a pessoa pode não estar preparada para receber um resultado impactante. Sem aconselhamento depois, pode interpretar o resultado de forma equivocada, tomar decisões precipitadas ou deixar de adotar medidas preventivas que poderiam fazer diferença.

Em resumo

O aconselhamento genético pré e pós-teste não é burocracia — é parte essencial e insubstituível do cuidado com a saúde genética. É o que transforma um resultado de laboratório em uma informação que a pessoa consegue entender, processar e usar de forma responsável para cuidar de si mesma e da sua família.

Se você ou alguém próximo vai realizar — ou acabou de realizar — um teste genético molecular, pergunte ao seu médico sobre a possibilidade de consulta com um geneticista clínico. Essa conversa pode fazer toda a diferença.

Referências

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